Se o papel de presidente da República fosse o de “criar pontes”, o saudoso engenheiro Edgar Cardoso (1913-2000) teria exercido o cargo como ninguém. Essa ideia é um atrevimento a que a nossa inteligência devia ser poupada: não se estabelecem pontes com o propósito de ficar a meio delas, oscilando entre uma e outra margem conforme as conveniências. Ora, um Presidente não tem conveniências: tem uma Constituição para cumprir e um pacto de ideias (uma “visão”) para unir os portugueses. O erro mais grave do Dr. Soares na sua recandidatura falhada, e o equívoco letal de Marcelo, assentavam na ideia de herdarem um regime de que tinham sido arquitetos e as suas famílias proprietárias – o que lhes concedia o direito divino para controlar o poder. Isso acabou; depois das grandes figuras, passámos ao reino da mediocridade. Ainda não ouvimos um único discurso que não fosse mau ou banal. A cinco dias das presidenciais, consolamo-nos em procurar uma figura sensata que entre em Belém com uma certa dignidade e alguma gramática.
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