Não fico apaixonado pelas casas de Frank Lloyd Wright, mas acho-as perfeitas para caber num recanto de floresta, entre bétulas e freixos, com varandas onde se pode saborear o final do dia. São elementos de puro enlevo romântico adaptado ao século que passou. Por outro lado, angustiam-me as degenerescências do estilo: as grandes paredes de vidro entre armações de aço e betão pré-esforçado, por onde entra a luz crua com toda a liberdade, mostrando como descalçamos os chinelos e como nos desequilibramos ao sair da cama — ou como trabalhamos e comemos. Casas assim no meio dos prados são uma intromissão de mau gosto, tanto quanto os ‘Design Hotels’ inspirados nos corredores do Ikea.
A falar verdade, tenho aquilo que Rubem Braga (que, com Nelson Rodrigues, fazem um dueto maravilhoso de cronistas do Brasil do século XX) chamaria o "desejo de uma casa de velho". Numa das suas crónicas, Braga ("o Braga") conta como assistiu, triste e desconsolado, à conversa entre um amigo seu e um arquiteto que lhe iria remodelar o apartamento: arrasar paredes, abrir janelas do chão ao teto, retirar portas e devassar quartos de dormir, substituindo cores suaves pelo cimento cru ou pelo aço de tons grisalhos.
Ao canto da sala, Braga ("o Braga") ficou macambúzio ao imaginar uma casa de amplas linhas geométricas, como um caixote equilibrado por um demónio exibicionista diante da luz crua do dia. E chorando por uma casa humana, de madeiras amáveis e linhas tão curvas como um retrato de Rubens, onde podemos esconder-nos, chorar, rir, comer, chamar alto e às escondidas pela pessoa que amamos, e esperar o fim dos tempos, se ele se decidir a chegar finalmente. O brutalismo da maior parte da arquitetura burguesa de hoje é uma repetição até à náusea dessa frieza fabril. Nela, somos elementos servis num desfile de banalidade. A idade salva-nos, dizemos o que queremos.
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